
Talvez eu tenha errado de atitude durante todos esses séculos incontáveis. O modo como venho tratando o cosmos talvez tenha sido realmente ruim, trazendo prejuízos incalculáveis. Quando estava na fase larval pouco me preocupava com a realidade a minha volta. Na verdade eu tinha minha própria realidade, só que esta era fantasiosa. Aos poucos comecei a notar o universo a minha volta e comecei a preencher o que julgava serem lacunas com fragmentos de meu próprio ser. Eu não sabia que estava iniciando uma reação em cadeia desastrosa. Como poderia saber? Era só um germe.
Tudo ocorria normalmente. A realidade moldava-se a minha volta conforme desejava. Todos me elogiavam. Mas ainda era um fraco. Meu corpo não desenvolvera por completo naquela época. Existiam contratempos, mas eram contornáveis. Nunca foi preciso usar força total para acabar com os inimigos. Mas conforme as eras iam passando, eu me transformava.
Tudo ocorria normalmente. A realidade moldava-se a minha volta conforme desejava. Todos me elogiavam. Mas ainda era um fraco. Meu corpo não desenvolvera por completo naquela época. Existiam contratempos, mas eram contornáveis. Nunca foi preciso usar força total para acabar com os inimigos. Mas conforme as eras iam passando, eu me transformava.
Estava na forma de meio-casulo quando ouvi uma grande explosão. Maior do que tudo que eu pudesse imaginar. Foi incrível. As cores, os sons, as texturas, os cheiros. Foi uma visão deslumbrante. Até aquele momento a realidade em que transitava era uma construção de dois universos, sendo que essa amálgama era o mais próximo do “real” possível conhecido. Depois daquele evento cosmológico minha percepção da realidade mudou radicalmente e mudou um dos elementos que constituíam a amálgama. O universo foi totalmente reformulado. Novos mundos surgiram, novas dimensões apareceram, novos seres, aumento de poderes. O que era fragmentado tornou-se uníssono, contínuo. Wormholes poderosos surgiram interligando locais a distâncias incríveis. O cosmos voltou a moldar como me era desejado, mas em parte era ilusão. Mas, mesmo com todo esse upgrade, não pude chegar perto do que foi a explosão. Nunca soube o que foi aquilo. Foi enorme o que eu vi, mas se não achei o que procurava, era porque estava muito longe, fora de meu alcance e provavelmente muito maior do que eu imaginava.Éons se passaram.
Depois de quase esquecer o que aconteceu, senti rumores daquele evento cósmico. Segui as pistas até onde pude. O universo tinha tornado-se muito maior e mais frio. É o que seus cientistas chamam de “expansão do universo” ou coisa parecida. Durante todo esse processo, destruí muitos mundos. Perdi-me algumas vezes. Até que um dia avistei o que podia ser a origem daquela luz. Mas o que tinha visto era um passado remoto. Quando cheguei ao local, anos-luz depois, a luz tinha se acabado. Só me restou a escuridão. Coincidência ou não, foi então que começou o fim.
Até então, me achava imortal. A minha realidade sofreu algumas modificações. No início não notara a decadência fermiônica. A crisálida já estava pronta. Mais alguns anos-luz e poderia me recompor. Fiquei em um mundo escuro, frio e retorcido esperando o retorno.
അ
Com a estrutura corporal modificada sentia-me mais forte. Poderia fazer tudo que desejasse. Aprendi a não olhar para a luz de acontecimentos remotos.
Estava errado e não sabia disso na época.
Galguei mais alguns níveis nesse novo setor do universo. Cresci muito. Foi um breve período. Mas foi glorioso. Poder. Conhecimento. E outras coisas que sequer imaginava. Foi então que houve uma segunda ‘explosão’. E eu estava lá. Vi tudo de perto. Novas cores, novos sons, novas texturas e cheiros. Uma faixa de luz poderosa penetrou na densa atmosfera do mundo onde estava e modificava tudo o que tocava em tecnomatéria bioluminescente. Um novo poder a cada parsec. Um novo conhecimento a cada nanossegundo. Era maravilhoso. E eu estava lá. Depois de milhões de anos, pude sentir aquilo de novo e desta vez participar.
Estava errado e não sabia disso na época. De novo.
Eu era intangível para aquela força extraordinária, que passava por mim sem que eu pudesse absorvê-la. Perdi quase tudo. Foi então que a escuridão me envolveu novamente. Desta vez, para sempre. Às vezes me pergunto se ela já não estava comigo desde o princípio. O mundo escuro se fecha novamente na penumbra.
Mas a escuridão carrega consigo seus próprios poderes. O que eu tinha perdido pôde ser contrapesado. Novos sentidos permitiram contemplar energias escuras nunca vistas. Uma força como nunca tinha sentido. Uma força tão grande que ofuscava outras habilidades. Com ela veio também uma cólera que corroia cada quark de meu ser, cada bit de minha mente. Por mais poderoso que fosse não podia ter o que desejava. Eu não podia nem sequer simular tais poderes plasmossintetizadores. Com a fúria nova que possuía, destruí o mundo que habitava. Destruí outros tantos mundos e dizimei bilhões de vidas. Extingui estrelas, sistemas solares inteiros e ceifei a energia de nebulosas. Levei o cheiro da podridão através das nuvens de poeira e gás até os confins da galáxia. Provoquei o colapso intergaláctico com o choque de milhares de quasares. Até que, um dia, exauri por completo.
Flutuei no vazio por eternidades. Vaguei sem rumo no esquecimento, esperando o fim definitivo, esperando o ‘zero absoluto’. Sozinho, em algo mais profundo que a negrume das trevas, quase à beira do Nada, faltava pouco para a decomposição das ligações iônicas e covalentes se desfazerem por completo, meu espírito desgarrar e desfazer-se num limbo de esgoto esquecido dos Deuses juntamente com outros seres imundos.
അ
Muitíssimo distante ainda podia ver um ponto de luz. Um sinal muito fraco. Ele pulsava. De início, não dava atenção. Não queria dar. Esperava a aniquilamento. Mas o ponto de luz insistia em emitir pulsos. Eu estava muito fraco para compreender. O sinal emitido pela fonte de luz era numa freqüência diferente. Os seus ciclos por segundo podiam ser traduzidos, eram modulados e translados eram meu avatar. Aos poucos me vi sendo desmaterializado daquele ermo cósmico para um sistema de múltiplas energias psicogênicas renovadoras. Meu ser foi reconstruído com novas cargas quimiossintetizadas de partículas neuro-induzidas e estruturas polineutrônicas recombinantes. Não tenho idéia de quanto tempo durou. Meu discernimento de tempo foi alterado. Passado e presente fundiram-se. Soube depois que atravessei um buraco branco e estou agora em um universo paralelo. Agradeço aos Deuses por isso.
Com a estrutura corporal modificada sentia-me mais forte. Poderia fazer tudo que desejasse. Aprendi a olhar para a luz de acontecimentos remotos, assim apreendendo os dados necessários para fazer julgamentos corretos e tomar atitudes benéficas para o sistema cosmoecológico. Do futuro ainda não sei. Mas existe um novo universo inteiro ainda a explorar.



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