08 setembro 2007

Quis custodiet ipsos custodes?

“Está ao nosso redor. Mesmo aqui, nesta sala. Você pode vê-la quando olha através da janela, ou quando liga a televisão. Pode senti-la quando vai trabalhar, quando está na igreja, ou quando paga seus impostos. É o mundo que jogaram diante de seus olhos, para deixá-lo cego quanto à verdade... que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu na escravidão, numa prisão que você não pode cheirar, provar nem tocar. Uma prisão para a mente.”

Recentemente na TV vi um noticiário sobre como Piracicaba, cidade do Estado de São Paulo estava implantando um sistema de vigilância de “trânsito”. Câmeras são dispostas em locais estratégicos próximos às faixas de pedestres e semáforos. A coisa funciona assim:
-Existe uma central de vigilância que fica observando os pedestres e motoristas e ao sinal de alguma imprudência ou possível infração, um alto-falante instalado no local, avisa aos pedestres como atravessar e se podem atravessar a faixa de segurança, aborda os veículos – até pela placa, cor, modelo - se estão em cima da faixa, estacionamento proibido, uso do cinto, etc. Constrangedor. Mas necessário.

Proposta interessante, que foi dito inspirado em um modelo britânico. Não vou questionar o modelo nem a necessidade de disciplina nas ruas das cidades brasileiras – aqui em Salvador, de cada cinco motoristas que vejo guiando apenas um está usando cinto de segurança – o que quero questionar é outra coisa.



Uma vez saiu numa reportagem da revista Veja sobre o uso de câmeras dentro de uma escola secundária particular – óbvio, porque a pública nem lâmpadas possui – o quanto foi polêmico. Algumas pessoas reclamaram da falta de privacidade. Do moleque que apronta no corredor, os casais que namoram nas escadas e dos pais. Até acho que alguns gostaram da idéia. Cadê você, Winston?

Mas isso foi antes do Big Brother explodir na mídia – e seus filhotes, Casa dos Artistas, por exemplo. Por falar em Big Brother, em 1948, era lançado 1984, de George Orwell. A história se passa no futuro em uma Inglaterra alternativa pertencente a um megabloco de países, a Oceania. É um totalitarismo disfarçado de democracia em que vivem os cidadãos de 1984 sob a onipresença do Grande irmão, desde que o ParTido chegou ao poder.

O livro, inspirado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 30 e 40 critica o stalinismo e o nazismo, toda a nivelação da sociedade, a redução do indivíduo em peça para servir ao estado ou ao mercado, conta a história de Winston Smith, membro do partido externo, funcionário do Ministério da Verdade. A função de Winston é reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Só que Winston começa a se questionar sobre a opressão do Partido sobre as pessoas.

Cadernos e lápis eram proibidos, sexo só para procriação, propagandas só do Partido, censuras, pessoas tinham uma ‘teletela’ em seu apartamento, para receber recados e ser viagiados.

Assim como são vigiados os ‘bigbrothers-por-opção’. Em busca da fama, luxúria e dinheiro, muitas pessoas sujeitam-se a ter sua vida gravada, vista e julgadas por milhares de pessoas que apenas ficam do outro lado da tela, monitor e telefone. Então é criada a turma do ‘bem’ e a turma do ‘mal’, como se já não bastasse o maniqueísmo do dia-a-dia na realidade real. Mentiras, fofocas, sexo, traição, voyeurismo, competição desmesurada, culto exacerbado ao corpo, ganância. Parece novela, mas é muito pior que isso. Muita gente passa a ‘conviver’ com os ‘detentos’. Torcer por eles ou contra eles.

Ninguém discute como fazer Governo funcionar através do voto, valorizar o salário, rever aposentadorias, mas se alguém fez pacto pra tirar fulano no paredão, isso está na ponta da língua. Fanatismo? Quase. Quem tem acesso à banda larga, fica o dia inteiro em frente ao computador, assistindo, votando, em programas de Reality Show. A própria realidade sem Show não parece agradar. Aí, entra a realidade falsa, a realidade virtual, tal como Second Life e Orkut.

Você já sabe o que é o Orkut? Já criou o seu perfil. Tem enviado muitos scraps para seus amigos? Quantos fãs hein?! Você utiliza-o para re-encontrar ou fazer novos amigos. Ou como o olho do big brother que tudo vê, na ponta dos seus dedos, vasculhando anonimamente perfis, realizando o clássico desejo “ser invisível”, perto de pessoas, cuja intimidade, gostos, relacionamentos e atitudes, você gostaria muito de conhecer, sem que elas saibam que você sabe. Mas como não suspeitar que ninguém saiba se está lá na rede para todo mundo ver? Se estiver lá, é para ser visto, afinal, a auto-exposição foi iniciativa própria. Aliás, as pessoas que criam um perfil no Orkut, não podem abandoná-lo – afinal, para que o fez? – precisam ficar alimentando o danado, como um Tamagoshi – alguém lembra? – qual a pior coisa que já fez na internet? Enviou um email-bomb? Fuçou o Orkut alheio? Alheio a quem?

Essa vida vigiada, com ou sem sua permissão, está cada vez mais presente em nossa sociedade. Bakunin, Henry Thoreau, Oscar Wilde e sua turma devem estar se revirando no caixão. Cartão de crédito, cartão de meia-passagem, localização de IP, identificador de chamadas, grampo de telefone... Dá para rastrear a vida de alguém sem sair de casa. Ou você acha que a Polícia Federal não trabalha? Mas qual é o limite da privacidade? Quem não deve não teme. Engraçado que nenhum parlamentar envolvido em escândalos e corrupção não marque presença na PF. E depois a Justiça quer culpar a Google pelos conteúdos pornográficos e de apologia a crimes que os usuários colocam na rede. Os estudantes que atearam fogo no índio pataxó se formaram e estão soltos. Que tipo de vigilância/justiça é essa? Deveria haver câmeras no Congresso, até mesmo nos corredores e banheiros.
Manipulação.
Desvio.
Impunidade.
Ignorância.
Controle.

"Eles me pegaram há muito tempo".

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